9 de nov de 2012

"Meu príncipe não veio num cavalo branco, mas numa cadeira de rodas"

Casal faz piquenique ao lado das seus cachorros, ambos estão sentados no chão.

O olhar da foto acima diz muito, mas não diz tudo sobre a história da empresária Juliana Françozo, uma bambambã da decoração de festas infantis, e do engenheiro mecatrônico Stefan Janzen. Ele ficou paraplégico num acidente, em 2001. Os dois se conheceram um ano depois – foi ela que insistiu para namorar. Stefan apostou que Ju desistiria ao deparar com sua rotina de deficiente. Mas ela enxergou o homem, e não a deficiência. “Meu príncipe não chegou em cavalo branco, mas numa cadeira de rodas”

Bati o olho no Stefan pela primeira vez em meados de 2002. Ele passou por mim de cadeira de rodas. Estávamos na igreja que ele frequentava e eu visitava pela primeira vez. Falei para a minha mãe, em tom de piada: “Poderia namorar esse cara...”. Só tornaria a vê-lo no ano seguinte, quando voltei à igreja depois de um período conturbado. Estava me curando de uma dengue e havia perdido dez quilos... Apesar do desânimo que sentia, observei de longe uma cena que me tocou: o Stefan tirou o próprio casaco e ofereceu a um morador de rua que apareceu na igreja com frio. Passados alguns dias, quando chegou o aniversário dele de 21 anos, uma amiga em comum me ligou pedindo que eu telefonasse para levantar seu astral – Stefan estava chateado por passar mais um ano na cadeira de rodas [o acidente de moto que o deixou paraplégico foi em abril de 2001, e ele ainda não havia se conformado.

Na real (Foto: Arquivo pessoal)
Conversamos muito, e falei para ele me ligar quando quisesse. E não é que Stefan ligou de novo no mesmo dia? Começaram aí longos bate-papos diários com hora marcada.Eu não entendia bem o que ele queria comigo... Conversávamos como amigos, mas óbvio que eu esperava algo mais. Até que finalmente marcamos um cinema.Lembro que, na hora de me arrumar, cogitei escolher um sapato baixo, mas pensei: “Se estivesse saindo com outro cara, eu deixaria de usar meu salto? Não!”. Então me vesti, me perfumei e fui. Entrei no carro [Stefan dirige um veículo adaptado], e bateu um arrependimento: “O que eu estou fazendo aqui?”.

Mas ele logo quebrou o gelo, colocou um CD e falou qualquer coisa que me deixou à vontade. Fiquei bem atenta a seus movimentos, curiosa para entender quanto ele se movimentava, quão independente era. Stefan não move do peito para baixo e só precisou de ajuda para retirar a cadeira do carro. Assistimos ao filme de mãos dadas, bem namoradinhos. Um pouco antes dos créditos, ele me deu um beijo no rosto... que virou um beijo de verdade! Combinamos de nos ver de novo. Nunca esqueço que, quando estava a caminho desse segundo encontro, fui abordada na rua. Levei um susto. Um rapaz que não conhecia me olhou fundo nos olhos e disse: “Deus manda dizer que está chegando sua vez, que tudo está perto de acontecer!”. Achei o cara apenas doido, mas ele estava certo. Fico arrepiada ao me lembrar disso. Bem, saí desse date completamente apaixonada, mas Stefan me jogou um balde de água fria logo depois, ao telefone: avisou com todas as letras que não queria nada sério. Mas não passava um só dia sem ligar. Precisei dar uma intimada: “E aí, vamos namorar? Do contrário, pode me esquecer!”. Como ele reagiu? Aparecendo em casa com lírios laranjas para me pedir em namoro.

Na real (Foto: Arquivo pessoal)

Veio então a fase de conhecer as famílias, trocar alianças de compromisso... E, como era de se esperar, apareceram as primeiras dificuldades. Ouvi coisas bem absurdas por causa da deficiência dele! Tinha gente que dizia que eu nunca seria feliz, que teria de cuidar dele para sempre. Uma pessoa chegou a perguntar à minha mãe como eu, “uma mulher vivida”, poderia ficar sem sexo. Como assim? Aquilo me machucava e me indignava na mesma medida. Naigreja que frequentávamos, boa parte dos “amigos” do Stefan se afastou. Alguns abusavam de seu jeito gentil, e comigo por perto ficava mais difícil se aproveitarem dele. Quando completamos quatro meses de namoro, a família dele viajou para a Alemanha, para o casamento de sua irmã. Ele preferiu ficar. E foi aí que vivi com Stefan todas as limitações de sua deficiência. Como ele acreditava num milagre, a casa não havia sido adaptada, e eu tinha de ajudá-lo a entrar e sair do banho, a coletar a sonda... Mas nunca pensei algo do tipo “onde foi que me enfiei?”. Ao contrário: nesse momento tive certeza de que queria viver com ele. Amava aquele homem com todo o pacote que ele me oferecia. Simplesmente não conseguia isolar sua condição física de todo o resto. Era o Stefan inteiro, por acaso com uma limitação.

Ficamos noivos e, naquele mesmo ano, Stefan se formou engenheiro mecatrônico. Ele, que estava na faculdade na época do acidente, fez provas em casa no início da reabilitação para não perder o ano letivo. Só impus uma condição para nos casarmos: queria que a casa fosse adaptada. Acredito, sim, numa possível recuperação, mas, enquanto ela não chega, defendo que o Stefan tenha qualidade de vida. Foram dez meses de preparação e uma enxurrada de gente se metendo na nossa vida, palpitando maldosamente. Cheguei a desconvidar uma pessoa para o casamento por ela dizer na minha cara que “casar com cadeirante era acabar com o próprio futuro”.

Na real (Foto: Arquivo pessoal)

Esse tipo de coisa, por mais que me desgastasse, só me dava ainda mais certeza do meu amor e da minha vontade de fazer dar certo. E deu: em 2005, numa festa para 300 pessoas, confirmamos nosso amor com um sonoro “sim”. Estamos há nove anos juntos. Minha rotina é bem corrida com a Happy Happenings, empresa de festas infantis que criei em 2006. Me esforço muito, como toda mulher, para sempre achar um tempinho só para nós dois. Nos entendemos pelo olhar, sabemos quando falar e quando calar. Só um amor maduro traz isso. E como amadureci! Hoje, valorizo o simples fato de tomar banho sozinhaou vestir uma meia... Aprendi a me colocar no lugar dele. Na reforma da casa, por exemplo, sentei na cadeira de rodas e percorri o ambiente para saber onde era preciso mexer. Nossa rotina é quase como a dos outros casais. Não dá para irmos a qualquer restaurante, cinema, hotel... Quando vamos sair, precisamos ligar, confirmar se o local pode nos receber com dignidade. Tem muito estabelecimento que acha que um banheiro com barras basta para ser considerado adaptado... E o que era para ser um programa bacana, leve, se torna um horror! É cada vez menos frequente, já que aprendi a deixar a vida do Stefan mais confortável. Por exemplo, carrego material de higiene e roupa extra para ele no carro, porque às vezes há imprevistos – por causa da paralisia, ele não controla as necessidades fisiológicas. Acidentes acontecem. 

Também não podemos fazer de tudo juntos. Dançar abraçados de pé é impossível. Mas e daí? Adaptamos a nossa dança. Ele fica na cadeira e me vira com as mãos, eu sento no seu colo e o giro também. É mais uma bagunça que uma dança propriamente dita, mas eu adoro. No sexo, também tivemos de... ser criativos. Não temos a mesma mobilidade de um casal comum, então aprendemos quais posições nos favorecem e recorremos a remédios que nos ajudam a ter uma vida sexual saudável. O Stefan lesionou as vértebras T7 e T8 e, apesar de ter perdido os movimentos do peito para baixo, isso não significa que ele não tenha nenhum tipo de sensibilidade. Como a ereção natural dura pouco tempo, usamos uma injeção no pênis. É ele que aplica porque sabe direitinho a área onde sangra menos. É um sangramento pequeno, nada que interfira no sexo. Temos de uma a três horas de estímulo. E é sempre bom, a despeito dessas “dificuldades técnicas”. O prazer dele também está em me ver, então é como se eu tivesse orgasmo por mim e por ele. Como não há ejaculação, não poderemos ter filhos pelas vias normais – quando decidirmos que é hora de aumentar a família, faremos inseminação artificial. Mas é engraçado, as pessoas se surpreendem quando digo que não me falta sexo! Muito pelo contrário, eu é que fujo das investidas dele, na maioria das vezes. Ou seja: enfrentamos percalços, mas nunca nos vitimizamos. Quem não tem nossos problemas tem outros. A única coisa que nos tira do sério é preconceito. As pessoas apontam, comentam quando nos veem de mãos dadas. Não entendem que o que sentimos é simplesmente amor, querem nos rotular. Quando eu era criança, me disseram que o príncipe encantado viria num cavalo branco, e não numa cadeira de rodas. Mas isso não me impediu de encontrá--lo, amá-lo e ser feliz para sempre a seu lado.

Com a palavra... Stefan Janzen
Em abril de 2001, derrapei numa poça de óleo numa curva da Rodovia Anchieta, em São Paulo, meu corpo se prendeu na moto e acabei parando só quando a minha cabeça bateu no concreto. Fiquei paraplégico. Nunca, porém, me passou pela cabeça que poderia morrer e sempre acreditei que voltaria a andar. Ainda acredito, aliás. Comecei a ir à igreja que minha mãe frequentava e entrei para o grupo de louvor (toco saxofone e guitarra). Foi lá que conheci a Juliana. No início, claro, fiquei inseguro, mas sabia que quem se aproximasse de mim naquelas circunstâncias estaria com o coração puro. Óbvio que passou pela minha cabeça que ela desistiria assim que conhecesse meus altos e baixos emocionais, deparasse com meu descontrole fisiológico. Mas tenho a sorte de ter uma esposa que não mede esforços para me ajudar e aliviar as coisas para mim. Tivemos momentos inesquecíveis, brigamos um pelo outro, nos unimos e amadurecemos. Seria mais fácil desistir. Só que sabemos que a vitória só vem com a luta.

Fonte: Revista Glamour

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